Vicissitudes da vida de um carteiro
Apesar de nada ter a ver com webmail, é com algum regozijo e bastante espanto que me revejo na pele de um carteiro e que agora, passados 3 meses, acho que estou bem a tempo de fazer um balanço da luta que tenho travado por essas estradas alheias e, algumas delas, anónimas. Sem nome mesmo!
Isto para dizer em poucas palavras – ser carteiro não é fácil – pronto, já disse. Para lá do aspecto pacato e da liberdade aparente destes profissionais que andam “a passear” ao mesmo tempo que entregam uma cartinhas, está uma profissão dura, desgastante, de elevada responsabilidade, mas ao mesmo tempo simpática, dinâmica, sociável e muito recompensadora. Digo isto porque as semanas passadas sobre a torreira, o frio, a chuva, os infindáveis carimbos e outras burocracias, contrastam com a libertinagem de andar de mota, sem chefes por cima do ombro, com uma ou outra pessoa interessante com quem podemos trocar dois dedos de conversa, e com outros personagens menos afáveis que certamente não deixam tanta saudade.
A minha curva de aprendizagem foi bastante íngreme. Deram-me um giro com mais de metade das casas sem número o que dificulta bastante o trabalho. Ter de entregar o correio baseando-me em referências como: “casa verde”, “2x depois do matadouro á direita” e “a seguir ao homem que enfardou o filho”, seria tarefa fácil no universo do Gmail mas não é a mesma coisa neste universo de mais de 500 caixas postais.
Esta foi a minha praxe. Não se vai concerteza repetir, mas vou retirar daqui importantes lições. Uma delas é a de que não existe impossível! Outra das lições que aprendi foi acerca da minha capacidade de tolerância e resiliência.
Alturas houve em que estive prestes a deitar a toalha ao chão. Não bastasse a chacota dos colegas pelos pequenos deslizes com a mota enquanto me habituava a esta, certos tralhos foram fortes o suficiente para me abalar o espírito ao ponto de chegar a pensar “será que isto é mesmo pra mim?”. Em especial, lembro-me do último, situado numa subida íngreme, com excesso de confiança e falta de precaução atrevo-me a ir lá de mota, como fui ensinado e como o fiz anteriormente. Só que dessa vez, e com uma mota cuja mudança insistia em saltar, não tive tanta sorte. Fui a resvalar de marcha-atrás tentando em vão travar o impacto iminente sem sucesso. Levei com 100kg de mota em cima do meu ainda dorido e inchado tornozelo da última queda. [ai!]
Enfim, situações destas fazem parte. Temos de nos habituar à ideia de que elas acabam por acontecer quando menos se espera. Por isso é melhor ficar de olho vivo e pelo menos, evitar que se repitam.
Mas se há dias cinzentos, também há outros que valem a pena recordar. No outro dia estava a entregar correio no Talefe enquanto o habitual cãozinho da família ladrava obstinadamente, tentando julgo eu, alertar os donos pra minha presença. Entretanto vem a dona á janela e começo a fazer-lhe algumas perguntas sobre o destino das cartas que tinha pra entregar. Quando estou pra abalar dali reparo num estranho silêncio de fundo - já não se ouvia o ladrar do cão! E eis que a sra sai de casa e me pergunta – Mas você pontapeou o bicho? Ao que eu ainda sem compreender o que queria ela dizer com aquilo, penso – mais depressa pontapeava o dono – respondo-lhe – Eu?! Ora essa, e porquê? E nisto procuro o animal e vejo que este está prostrado no chão quase em opistótono e de patas pro alto. Saio da mota e vou ver de perto o cão, que agora começa a recobrar a consciência e combalido, refugia-se na sua casota para recobrar forças.
O que aconteceu? Bem, a explicação simplista e apesar da sua provecta idade, foi de que ladrou tanto que se esqueceu de respirar.
Outro simpático quadrúpede que visito quase todos os dias é um pastor alemão que se empoleira no portão com as duas patas e a cabeça de fora. A princípio intimida, mas depois começo a afeiçoar-me ao bicho pois algo no “tom de ladrar” dela me diz que realmente não quer morder, mas sim encenar uma atitude responsável e protectora do que lhe foi confiado. E isso curiosamente foi-se-me tornando mais notório á medida que avançava com uma festinha aqui e ali e “conversava” com ela. Tem dias! Outros há em que me morde os preciosos dedinhos [ai!], mas o ladrar é quase sempre em tom de choro…é engraçado. Um dia destes deixo de a ouvir por instantes e quando estou para arrancar, eis que me prega um susto de morte ao se pôr à frente da mota. Tinha saído pelo outro portão enquanto depositava o correio e decidiu pregar uma partida ao carteiro, a safada…
O que vale é que toda a recruta tem um fim. E esse fim está á vista. Há no entanto ainda muito que aprender, ensinamentos que aguardam ao bater da curva. E eu estarei atento, ao mesmo tempo que me ergo das cinzas e arrumo as minhas gavetas.
